AS MIGRAÇÕES DE BRÁS CUBAS: ESTRATÉGIAS DA IDENTIDADE
Elvya Shirley Ribeiro Pereira – UEFS
O nome Brás Cubas, com Machado de Assis (1839-1908), batiza uma outra formulação estética na literatura brasileira que, diríamos, é marcada por fortes deslocamentos tópicos (entre ficção e história) no contexto da narrativa até então produzida entre nós: primeiro, a subversão do uso corrente da perspectiva, instaurando a narrativa como fragmento de registros existenciais que emergem e, ao mesmo tempo, remetem ao espaço imponderável da morte, desestabilizando o suporte retórico centrado numa idéia de essência histórica e de integridade psico-social; segundo, o nonsense inerente às “memórias póstumas” deságua na quebra do sentido histórico metafísico romântico, voltado para as origens, instaurando um sentido histórico construído na dispersão dos acontecimentos, de feição genealógica. Como diz Michel Foucault, na esteira de Nietzsche[1], a genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da “origem”[2]. Com o nome Brás Cubas, Machado de Assis articula a imagem, pessoal e histórica, do protagonista como um signo móvel e equívoco, signo de transgressões de fronteiras discursivas, e de rasuras culturais na arquitetura utópica do Romantismo.
Para penetrar as sugestivas e labirínticas faces (histórica, poética, crítica, metatextual e reflexiva) de Brás Cubas, é preciso assumir os riscos circunstantes a um olhar que se pretende múltiplo e deslocado, um olhar que busca inscrever no objeto sentidos insuspeitados: marcar a singularidade dos acontecimentos, longe de toda finalidade monótona; espreitá-los lá onde menos se os espera e naquilo que é tido como não possuindo história – os sentimentos, o amor, a consciência, os instintos (idem, p. 15). É preciso lançar-se na dispersão dos "fatos", recolher os fragmentos históricos e culturais que, aproximados, sobrepostos, entrecruzados, ganham um outro brilho, produzem novas articulações discursivas.
Brás Cubas atualizar-se-ia, desta forma, não apenas como personagem restrito ao romance de Machado de Assis, mas sobretudo como figura mutante que possibilita leituras críticas tanto da série literária, como da histórica, problematizando conceitos utópicos e padrões estéticos. Partindo do romance Memórias Póstumas, podemos demarcar algumas rotas de um enredo transverso que se nos configura nas diversas faces de Brás Cubas potencializadas por Machado. Propomos, portanto, uma leitura indicial dessa figura, com ela traçando uma complexa rede de relações discursivas.
Para melhor acompanhar o desdobramento dessas reflexões acerca da identidade, julgamos importante relembrar aqui o terceiro capítulo das Memórias Póstumas, significativamente denominado “Genealogia”, em função do que o transcrevemos abaixo:
Mas, já que falei nos meus dous tios, deixem-me fazer um curto esboço genealógico.
O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luís Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós – dos avós que a minha família sempre confessou, – porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Luís Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei Conde da Cunha.
Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da África, em prêmio da façanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na família daquele meu famoso homônimo, o Capitão-mor, Brás Cubas, que fundou a vila de S. Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Brás. Opôs-se-lhe, porém, a família do capitão-mor, e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas (1994: 515-6; v. 1; grifos nossos, exceto da palavra “calembour”, com grifo do autor).
O romance machadiano apresenta-se então como ponto de convergência e, ao mesmo tempo, de expansão das imagens migratórias de Brás Cubas em alguns dos nossos contextos culturais. No romance se cruzam dimensões históricas e ficcionais da personagem: o “fidalgo” português que fundou a Vila de São Vicente, em meados do século XVI, e que combateu os Tamoios confederados – foi na linhagem histórica, oficializada, desse homônimo que os Cubas machadianos, com a estratégia de falsificação da origem, quase se inseriram. Desmascarados nessa genealogia, eles optam por uma outra “origem” sustentada não mais na falsificação de uma nobreza, mas na invenção de uma heroicidade, reportando-se desta vez às cruzadas contra os mouros na África – ainda aqui, não se trata de fixar uma origem, mas de apontar uma direção que é irredutível a um tempo pleno e homogêneo do "princípio". Como diz Foucault,
Procurar uma tal origem é tentar reencontrar "o que era imediatamente", o "aquilo mesmo" de uma imagem exatamente adequada a si; é tomar por acidental todas as peripécias que puderam ter acontecido, todas as astúcias, todos os disfarces; é querer tirar todas as máscaras para desvelar enfim uma identidade primeira (idem, p. 17).
Não se trata, com a genealogia de Brás Cubas, de uma falsificação da história propriamente, mas de uma rasura da metafísica da origem travestida de história. Podemos dizer que, neste aspecto, o "rosto" da verdade histórica não passa de uma construção das máscaras retóricas que conformam a diversidade e os disparates subjacentes à imagem da origem.
Paralelo a esse plano genealógico do enredo, o romance machadiano nos suscita as figuras de Brás Cubas referidas por Domingos Gonçalves de Magalhães (1811-1882), em seu livro A Confederação dos Tamoios (1856), e por José de Alencar (1829-1877), na famosa polêmica em torno deste poema épico. Mais conhecido como autor de Suspiros poéticos e saudades (1836), livro consagrado como marco inicial do Romantismo no Brasil, Gonçalves de Magalhães teve uma intensa participação na vida política e cultural do período. Em A confederação dos Tamoios, ele "relata" a luta dos Tamoios contra os "invasores portugueses". A Confederação dos Tamoios representa um dos episódios mais importantes da história do Brasil no começo da colonização européia, conforme destaca Edmundo Moniz, argumentando que foi a primeira reação nativista que teve uma amplitude inimaginável, deixando os colonizadores em plena defensiva[3]. O poema de Magalhães narra, em seus 10 cantos, a luta e o extermínio dos índios confederados e a conseqüente fundação da cidade do Rio de Janeiro por Estácio de Sá.
As "Cartas sobre a Confederação dos Tamoios" foram publicadas de 10 de junho a 15 de agosto de 1856, no Diário do Rio de Janeiro. O jovem polemista, José de Alencar, consegue plenamente o seu objetivo de provocar uma reflexão crítica em torno da produção literária local, cujo desafio maior era poder conciliar forma e conteúdo na busca de uma expressão nacional(ista).
Ao optar pelo nome Brás Cubas, incomum e bastante marcado por uma polêmica de grande repercussão nos meios literários, Machado de Assis[4] possibilita-nos, por uma série de associações e inferências, a visualização de um outro plano retórico em que se insere a personagem, ou seja, um plano agenciador de emergentes questões históricas e nacionalistas. José de Alencar, na “Última carta sobre A Confederação dos Tamoios” (a qual, apesar do título, passaria a ser a quinta, já que ele retoma a polêmica e escreve mais três cartas), critica a pobreza de linguagem e de sentimento do poema de Gonçalves de Magalhães, ao seu ver, intolerável:
Mem de Sá, Estáçio de Sá, Salvador Correia, os fundadores e o primeiro alcade do Rio de Janeiro, não merecem uma página do poema; entram apenas como partes mudas no fim da representação para assistirem ao desfecho. O Sr. Magalhães prefere ocupar-se com um certo Braz Cubas, a propósito de um episódio de vingança do que descrever-nos esses bustos históricos, que a par de Martin Affonso formam o frontespício da primeira cidade da América do Sul (Alencar, in Castelo (org.), 1953: 37-38).
O ideário nacionalista do autor de Iracema condena o poema de Magalhães, entre outras coisas, por dar espaço demasiado a esta que ele considera uma figura secundária na história do Brasil. É como invasor das terras tamoias, traidor da confiança de um povo e, por fim, como cruel escravizador de índios que tal “fidalgo” português aparece no poema épico de Gonçalves de Magalhães. Por um lado, a figura de Brás Cubas delineada por Magalhães aparentemente iria contrariar o ideário nacionalista de Alencar, o qual se projeta numa conciliação das raças em que sobressaem os valores positivos e a força predominante do colonizador; e por outro lado, este Cubas rasuraria a pretensão de heroicidade ou de nobreza almejada pela família do protagonista das Memórias póstumas, em consonância com a trajetória maculada do herói do romance e, por tabela, dos heróis nacionais construídos pela visão do colonizador. Vale aqui a ironia machadiana, centrada no defunto autor, que constrói a própria genealogia à margem das "verdades" oficiais, ou seja, no rastro das fraturas históricas, seja em relação à identidade familiar, seja no contexto da "origem" da nação e dos vultos nacionais.
Alencar, numa crônica de 21 de janeiro de 1855[5], um ano antes da publicação das suas polêmicas "Cartas sobre a Confederação dos Tamoios", descreve-nos, numa atmosfera de "sonho", cenas de uma história monumental, protagonizada por heróis portugueses que aqui começaram a desembarcar com a caravela de Martim Afonso de Souza. Embora Alencar não cite, foi nesta expedição que veio Brás Cubas, "fidalgo português", futuro fundador da vila de São Vicente e doador de terras para A Companhia de Jesus[6]. De personagem estruturalmente integrado à narrativa oficial da colonização, Brás Cubas ganha novos matizes ideológicos na visão crítica dos dois escritores românticos: aparece como aventureiro e escravizador de índio no poema de Magalhães; serve de álibi para as críticas de Alencar ao "nacionalismo" épico de A confederação dos tamoios, sob o argumento de que se trata de uma personagem secundária da nossa história.
Por sua vez, Machado de Assis, ao trazer este polêmico Brás Cubas para o primeiro plano do seu romance, redimensiona a própria discussão nacionalista de fundo estético e histórico, no crivo de uma proposta con-textual então dessacralizadora, como fica patenteado no “Capítulo XIV / O primeiro beijo”, em que o narrador, ao descrever a sua entrada na vida adulta, constrói uma imagem de incisiva natureza metacrítica:
Tinha 17 anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança, com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeiras e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros (Assis, 1994: 532-3; v. 1).
Nesta imagem altamente paródica, Brás Cubas, reportando-se ao ano de 1822, ano da Independência política do Brasil, descreve a sua entrada na vida adulta, e, por extensão metacrítica, o amadurecimento da própria literatura brasileira, a partir dos escombros das estéticas em voga aqui ou além-mar, seja o ideário romântico, sejam as fixações deterministas do realismo. Em ambos os casos, o cavalo que conduz os nossos valores literários se tornara impotente ou se exauriu enquanto força criativa e simbólica: O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeiras (...). No seu texto de 58, "O passado, o presente e o futuro da literatura", Machado já alertava para o fato de que é mais fácil regenerar uma nação, que uma literatura. Para esta, não há grito de Ipiranga; as modificações operam-se vagarosamente; e não se chega em um só momento a um resultado (op. cit., p. 787). Assim, imagens como morte, regeneração e transfiguração são caras às peripécias do defunto autor, e ao autor de Brás Cubas quando se trata de pensar a nossa independência intelectual e literária, em contrapartida a uma independência política iconizada num lance meramente retórico, o grito de Ipiranga.
Por estas e outras marcas funcionais de Memórias póstumas de Brás Cubas, podemos dizer que Machado de Assis elabora este romance com a consciência crítica de que o mesmo ocupa um lugar estratégico no contexto literário brasileiro, um lugar de diálogos e deslocamentos em relação tanto a uma tradição literária nacionalista de cunho ufanista, quanto às perspectivas críticas em torno da identidade e dos valores que ditavam a nossa história.
Curiosamente, a insólita construção ficcional de Brás Cubas articulada por Machado projeta-se ainda como força figurativa na obra de Lima Barreto. O autor de Policarpo Quaresma se insere nessa trajetória dos Cubas referindo-se explicitamente à personagem em pelo menos duas crônicas – “Tenho esperança que...” e “Elogio da morte”, ambas de 1918 –, nas quais a complexa figura integra um contexto de reflexão existencial. Contudo, no mesmo Lima Barreto (que também escrevia para uma revista literária chamada “Brás Cubas”), temos a projeção dessa figura tanto em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, história sugestivamente narrada por “Augusto Machado”, como em Triste fim de Policarpo Quaresma, herói que também tem a consciência de que morre sem deixar herdeiros.
Nesse movimento de atração e expansão da personagem, a figura de Brás Cubas desloca-se do contexto histórico em direção a um espaço conceitual, ganhando densidade crítica e paródica. Já vimos que Brás Cubas migra da narrativa histórica para o poema épico A confederação dos Tamoios, e por isso serve como um dos motivos à contundente crítica de José de Alencar àquela obra de Gonçalves de Magalhães (no contexto das discussões estético-nacionalistas) e chega ironicamente ao centro da narrativa machadiana, proporcionando a subversão de valores estéticos e ideológicos e deslocando o sentido histórico,da idéia de origem para a de genealogia.
Com a marca machadiana, linhas retóricas de Brás Cubas passam por Lima Barreto e migram ainda em direção às revisões modernistas, ressoando no romance de Oswald de Andrade, Memórias sentimentais de João Miramar (1924) – “memórias” que têm como prefaciador um tal “Machado Penumbra”; e na rapsódia de Mário de Andrade, Macunaíma (1928), um herói de feitos sobrenaturais (como o autor-defunto Brás Cubas) e sem nenhum caráter (como a personagem machadiana que, morto, não se submete aos disciplinares campos éticos, morais ou psicológicos da sociedade). Por fim, podemos ver na construção genealógica da personagem Amleto, do romance de João Ubaldo Ribeiro(Viva o povo brasileiro, 1984), marcações retóricas e expressivas que perfilam o Brás Cubas machadiano.
Estabelecendo-se como uma figura nômade, impulsionada pelo movimento migratório determinado por Machado, Brás Cubas desarticula a proposta nacionalista romântica, culturalmente presa à pergunta pela identidade como fonte geradora da narrativa, e interpõe uma perspectiva mais complexa de se pensar a questão da identidade (biográfica e nacional). Deslocando-se do mito da pureza da origem, o nosso defunto autor se locomove como jogo e transgressão – memória construída e rasurada. São esclarecedoras, aqui, as reflexões de Boaventura de Sousa Santos, pensador português, quanto à pergunta pela identidade que perpassa a produção cultural dos países colonizados da África e da América Latina:
Sabemos hoje que as identidades culturais não são rígidas nem, muito menos, imutáveis. São resultados sempre transitórios e fugazes de processos de identificação. Mesmo as identidades aparentemente mais sólidas, como a de mulher, homem, país africano, país latino-americano ou país europeu, escondem negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidades em constante processo de transformação, responsáveis em última instância pela sucessão de configurações hermenêuticas que de época para época dão corpo e vida a tais identidades. Identidades são, pois, identificações em curso (SANTOS, 1996: 135).
As Memórias Póstumas, sobretudo através da figura migratória de Brás Cubas, podem ser lidas como contraponto às discussões vigentes acerca da identidade nacional. Vemos que Machado de Assis tinha consciência (como leitor crítico dos esforços retóricos românticos) de que, como diz Boaventura, a questão da identidade é semifictícia e seminecessária, tendo em vista que as identificações, além de plurais, são dominadas pela obsessão da diferença e pela hierarquia das distinções. Assim, diz o crítico:
Quem pergunta pela sua identidade questiona as referências hegemônicas mas, ao fazê-lo, coloca-se na posição de outro e, simultaneamente, numa situação de carência e por isso de subordinação. Os artistas europeus raramente tiveram de perguntar pela sua identidade mas os artistas africanos e latino-americanos (...) foram forçados a suscitar a questão da identidade. (...) Para quem a formula, apresenta-se sempre como uma ficção necessária. Se a resposta é obtida, o seu êxito mede-se pela intensidade da consciência de que a questão fôra, desde o início, uma necessidade fictícia. É, pois, crucial conhecer quem pergunta pela identidade, em que condições, contra quem, com que propósitos e com que resultados (idem, p. 135 - grifos nossos).
Esse movimento retórico entre valores em curso, evidente no proceder romântico sob uma ótica finalista, parece ser assimilado criticamente por Machado de Assis, que então busca uma outra ordem de inserção do seu texto na dinâmica literária nacional, criando assim um novo contexto reflexivo para a representação da formação histórico-cultural brasileira. Viva pois a história, a volúvel história que dá para tudo, diz o narrador da Memórias Postumas, após uma lapidar reflexão filosófica sobre o aspecto construtivo e mutável do olhar histórico, amparada em exemplos vários, concluindo com um que se refere à vida de Lucrécia Bórgia (1480-1519): E tu, madama Lucrécia, flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a Messalina católica, apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lírio, também não ficaste pântano. Diante disso, conclui ironicamente o narrador: Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio[7]. Esta espécie de "entre-lugar" requisitado por Brás Cubas, de ponto de observação crítica que desestabiliza a idéia de uma "verdade" histórica única e idêntica a si mesma, reflete tanto um padrão mental do narrador e do autor-implícito, como se estende à própria lógica interna do romance, que se sustenta numa estética do fragmento levada a cabo através de módulos (capítulos) recorrentes, permutáveis e autocríticos.
Mais uma vez, Boaventura de Sousa Santos pode nos ajudar a compreender estes deslocamentos conceituais de Machado de Assis, os quais abrem novas perspectivas para uma postulação (descentrada) da identidade nacional. Diz o crítico:
Sabemos, por último, que a resposta, com êxito, à questão da identidade se traduz sempre numa reinterpretação fundadora que converte o défice de sentido da pergunta no excesso de sentido da resposta. Fá-lo, instaurando um começo radical que combina fulgurantemente o próprio e o alheio, o individual e o coletivo, a tradição e a modernidade (SANTOS, op. cit., p. 136).
Neste sentido, a pergunta pela identidade, para obter êxito na resposta, requer uma eficiente consciência crítica e construtiva acerca do seu próprio lugar de enunciação. E este lugar, sabe Machado, não pode ser fixo sob pena de se prender ao défice de sentido de que fala Boaventura. Talvez por isso o livro seja qualificado por Brás Cubas como mais do que passatempo e menos do que apostolado[8]. Segundo Boaventura, fulgurações deste tipo [que transformam o défice de sentido da pergunta no excesso de sentido da resposta] podem ser identificadas em criadores culturais e políticos como, no Brasil, Oswald de Andrade. A partir das próprias reflexões do poeta modernista, diz Boaventura:
Acima de tudo, Oswald de Andrade sabe que a única verdadeira descoberta é a autodescoberta e que esta implica presentificar o outro e conhecer a posição de poder a partir do qual é possível a apropriação selectiva e transformadora dele (idem, p. 136).
Contudo, esse processo de autodescoberta já está posto, como princípio operacional, pelo nosso defunto autor, Brás Cubas. A personagem – num duplo movimento que não só aciona suas migrações, como desloca o eixo da questão da identidade do ideal de pureza da origem (na invenção/falsificação da linhagem familiar), e de hierarquia funcional (na própria radicalidade da inversão vida/morte) – já aponta para a estratégia "macunaímica" de formalização/problematização da nacionalidade. Diríamos, assim, que tanto Oswald de Andrade como Mário de Andrade se beneficiaram dos influxos críticos e estético-ideológicos potencializados pelo “bruxo” do Cosme Velho.
ALENCAR, José. Cartas sobre A confederação dos Tamoios. In: José Aderaldo CASTELO, A polêmica sobre A confederação dos Tamoios. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Univ. de São Paulo, 1953. col. Textos e Documentos, n. 2.
_____. Ao correr da pena. São Paulo: Melhoramentos, s/d.
ANAIS da Biblioteca Nacional, v.82, 1962, Livro de Tombo do Colégio da Companhia de Jesus.
ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional; trad. Lólio Lourenço de Oliveira, São Paulo: Ática, 1989.
ASSIS, Machado. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1994. 3 v.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 11 ed., trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1993.
GONÇALVES DE MAGALHÃES, José Domingo. A Confederação dos Tamoios. Rio de Janeiro: Secretária de Estado de Cultura, 1994.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós- modernidade. 2 ed., São Paulo: Cortez, 1996.
[1] Todas as considerações de Michel Foucault, neste capítulo, foram retiradas do seu livro Microfísica do poder (1979), no capítulo intitulado “Nietzsche, a genealogia e a história”, pp. 15-37. Assim, fica evidente que as reflexões atribuídas de agora por diante a Foucault são, em grande parte, uma leitura sua do pensamento nietzschiano.
[2] Foucalt, 1979: 16.
[3] MONIZ. In Magalhães, 1994: 11.
[4] Em 1858, dois anos depois desta acirrada polêmica, Machado de Assis, então com 19 anos, publica um artigo em que pretende fazer um balanço estético e ideológico da literatura brasileira, intitulado "O passado, o presente e o futuro da literatura" (Assis, 1994: 785-787, v. III). Neste, e em suas produções críticas futuras, é instigante o fato de que Machado não se refere ao poema épico de Magalhães nem à polêmica gerada por Alencar.
[5] ALENCAR, Ao correr da pena, s/d., pp. 143 a 145.
[6] "[51]. Doação dos chãos e terra que deu BrÁs Cubas e Manoel Veloso aos padres junto da Villa de Sanctos
Saibão quanto êste estromento de dada de terras pera todo sempre virem em como no ano do nascim.to de Nosso Sor Jhu Xpo. de mil e quinhentos e sessenta e sete anos, aos vinte e hum dia do mês de julho, nesta Vila do pôrto de Santos, costa do Brazil, Capitania de São V.te, de que hé capitão e G.dor por El-Rei Nosso sor Martim A.o de Souza, do Conselho do dito Sor etc. Nesta dita Vila, nas casas de Brás Cubas, cavalleiro fidalgo da Casa d'El-Rei Nosso Sor, e alcaide-mor desta Vila de Santo, e provedor da Fazenda do dito Sor nesta Capitania de São V.te e da Capitania de Santo Amaro, e em prezença de mim tabellião e das t.as todo ao diente nomeados, pareceo o dito Brás Cubas e Manoel Vellozo, seu gemro, e por êles ambos juntamente e cada hum por si, foi dito logo pello dito Bráz Cubas que êle por ser m.to serviço do Sor Ds. e a bem proveito desta terra, avia por bem de dar à Companhia de Jesu huma terra e chãos que estão indo desta Vila, passando as casas de Bartolameu Carrasco, que forão e começando do ribeiro em diante e ribeiro que lhe deram que agora são da dita Companhia..." (in Anais da Biblioteca Nacional, v. 82, 1962, Livro de Tombo do Colégio da Companhia de Jesus, pp. 102/3, grifos nossos).
[7] ASSIS, "Capítulo IV / A idéia fixa", in Memórias póstumas de Brás Cubas, 1994: 516; v. 1).
[8] ASSIS, 1994: 516.